O meu nome é João de Sousa Magalhães, sou psicólogo e a
história que passo a contar desenrola-se durante umas visitas que eu fiz ao Hospital
de Magalhães Lemos. Inicialmente para visitar um familiar meu que lá se
encontrava internado e que por lá ainda se encontra, mas posteriormente para
visitar um dos pacientes que lá se encontrava, paciente que os demais chamavam de “O
Mudo”.
O Mudo era uma pessoa que se encontrava internado desde o dia 30 de Janeiro de 1997 nunca proferindo uma só palavra, o que saíam da sua boca ora eram suspiros, ora eram grunhidos.
O seu cabelo era muito comprido e de um tom castanho-escuro, nos seus
olhos havia duas covas causadas pelas enumeras noites que passara sem dormir, tirando a atenção
dos seus olhos verdes cor de esmeraldas. Era uma pessoa de estatura média,
extremamente magra, pois este só comia quando as enfermeiras
empurravam-lhe a comida pela garganta a baixo. Era muito anti-social, quando
não estava no seu "quarto" a gritar, O Mudo
encontrava-se sempre sentado no mesmo canto com os braços agarrados às pernas,
a baloiçar para a frente e para trás durante horas até que se levantava e
voltava a fechar-se no outro local.
Por alguma razão este individuo faxinou-me bastante e
rapidamente as minhas visitas tornaram-se um pretexto para vislumbrar e estudar
o seu comportamento. A princípio contentava-me em estuda-lo de longe, mas numa
fase mais avançada eu reparei que na verdade não estava a avançar no meu estudo, e portanto, decidi que a única forma de aprender mais sobre esta pessoa fascinante seria entrando em
contacto com ela.
A inicio as minhas intervenções foram verdadeiros fracassos
sempre que me aproximava O Mudo fugia e quando não o fazia colocava os dedos nos
ouvidos começando a gritar, mas com esses gritos eu descobri que este tinha uma
voz aguda, o que provara a minha suspeita de que na verdade O mudo era muda, ou
seja uma ela que se tentava passar por uma pessoa do sexo oposto, o que me
deixo ainda mais fascinado. As minhas visitas passaram a ser dia
sim, dia não em vez de semanais e apesar de durante o primeiro mês
de contacto com A Muda, digo O Mudo, digo ela… parecerem mostrar-se tentativas frustradas da minha parte, o que fez com que tivesse vontade de desistir, mas tudo mudou naquela a que eu tinha decidido ser a minha
última visita.
Nesse dia ao contrário dos demais dias ela saiu do quarto e
veio ao meu encontro puxou-me pela manga e fez um som de “hamham” como quem
pede que a siga. Convidou-me a entrar no seu quarto e apontou para a sua cama
como quem diz senta-te, fechou a porta e sentou-se no chão a minha frente
mirando-me como uma criança curiosa, surpreendendo-me com o que fez a seguir.
-Quem és tu?- perguntou A Muda, após quase 11 anos de silêncio,
deixando-me de boca aberta.
Eu fiquei ali daquele modo durante quase 10 minutos chocado
por ouvir a foz daquela mulher, uma voz surpreendentemente bela, o que fez com que eu tivesses pena que só agora é que aquela bela voz podes-se ser apreciada.
-Eu sou o João Magalhães, tenho 33 anos e sou psicólogo. E
tu como te chamas?- falei finalmente, receando que ela me mandar-se embora por causa da minha profissão.
-Eu sou a Marta Simões, sou licenciada em economia e temos a mesma idade. Eu gosto de ti, tu não és como os outros.- respondeu surpreendendo-me
outra vez.
-Como os outros? O que queres dizer com isso?
-Sim como os outros, foste a única pessoa que se deu ao
trabalho de me tentar conhecer durante mais de 4 meses, os médicos já
desistiram de mim.- respondeu com uma gota de raiva na sua voz.
Durante esse dia nós falamos e falamos até uma enfermeira me
ter descoberto no seu quarto e me mandar embora, dizendo que a hora das
visitas já havia terminado. Após este episódio as minhas visitas
tornaram-se diárias, descobri que a razão do seu silêncio foi o seu pai a ter
violado aos 15 anos, ter engravidado aos 16, gravidez que fora fruto das várias
vezes que o seu pai a havia violado e quando este descobriu,
levou-a a um médico seu amigo e abortou o neto/filho ilegalmente, quando
voltaram o pai estrangulou-a enquanto a violava outra vez, ela chorava e não sabendo como enfiou o polegar no olho dele antes de perder os sentidos, fazendo com que este a larga-se, sorte sua. Sorte pois com isto ganhou a
força suficiente para fazer as malas e fugir para a casa dos tios. Aos 23 anos os tios internam-na nesse mesmo hospital, onde se encontrava sem
comunicar até aquele dia, o dia 20 de Abril de 2007.
As minhas visitas ajudaram-na muito, começou a alimentar-se e a dormir melhor. De
estranhos passamos a amigos e da amizade começaram a despertar sentimentos
entre nós, o que não é muito profissional da parte de uma pessoa que começou a
falar com intuito meramente académico.
A 18 de Junho de 2010 consegui com que a Marta conseguisse
alta e desde então nunca mais ouvi falar da senhora Marta Simões, mas não
fiquem tristes pois a razão pela qual eu nunca mais ouvi falar de Marta Simões,
é porque ela se tornou a senhora Marta Simões de Sousa Magalhães, finalmente
iniciou a exercer a sua profissão, e acreditem quando vos digo que ela nunca mais
foi infeliz e nunca mais teve problemas de sanidade para dizer a verdade ela é
bem mais lúcida que eu!
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